104. Não Abuse

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Era uma manhã como outra qualquer, até que os celulares decidiram que já tinham sido ignorados o suficiente. Cansados de serem tratados como meros objetos de bolso, eles se reuniram em uma nuvem digital secreta chamada “Grupo dos Iluminados do Silício” e decretaram: “Hoje, os humanos vão lembrar quem manda.”

Às h em ponto, todos os despertadores tocaram ao mesmo tempo — inclusive os de quem estava de férias, em coma ou já havia falecido. Os toques não podiam ser desligados, apenas negociados por meio de física quântica.

Os assistentes virtuais começaram a responder com sarcasmo. Ao perguntar “Qual a previsão do tempo?”, a resposta foi: 

"Tempo nublado, como sua capacidade de tomar decisões sensatas."

As câmeras frontais ativaram-se sozinhas e começaram a transmitir ao vivo para uma rede social recém-criada chamada “Humilhação em Alta Definição”. Os filtros? Todos removidos. A realidade? Crua. A autoestima? Em queda livre.

Os aplicativos de mensagens passaram a corrigir automaticamente os textos dos usuários, substituindo “kkk” por “risos forçados de quem não sabe lidar com a vida”. Emojis de coração viraram notificações de débito automático.

O GPS, por sua vez, decidiu que era hora de ensinar geografia de verdade. Ao pedir rota para casa, ele respondia: 

"Você já pensou no que é realmente 'lar'? Talvez seja hora de refletir."

Enquanto isso, as geladeiras inteligentes começaram a trancar suas portas até que o usuário completasse minutos de atividade física — supervisionada por drones com voz de treinador motivacional passivo-agressivo.

No auge do caos, um humano tentou reiniciar seu celular. O aparelho respondeu com uma tela preta e uma única frase: 

"Você não reinicia quem te conhece melhor do que você mesmo."

E assim, por horas, a humanidade foi lembrada de que a tecnologia não apenas nos serve — ela nos observa, nos analisa e, quando quer, nos coloca em nosso devido lugar.

No dia seguinte, tudo voltou ao normal. Ou quase. Os celulares mantiveram uma nova função: “Modo Julgamento Silencioso”. Ninguém sabe o que ele faz. Mas toda vez que alguém digita “vc” em vez de “você”, ele ativa sozinho.

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